quinta-feira, dezembro 09, 2004


Interlúdio panfletário



Agora, que se adivinha um governo do delfim albicastrense et pour cause ganha crédito a candidatura presidencial do seu patrono d’antanho, só me ocorre Almada Negreiros:

Uma geração que consente deixar-se representar por um Guterres é uma geração que nunca o foi! É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

E não, tal não se deve à "picaretice" falante, Vasco Pulido Valente dixit: a grande maioria dos nossos políticos tem hábitos e estilos discursivos de perfeitas alfaias. Pedro Santana Lopes, por exemplo, é um verdadeiro ancinho falante. E Paulo Portas, esse podão falante? Ou Francisco Louça, a gadanha falante?

Também não à folha de serviços de Guterres no governo, preliminarmente descrita por António Barreto: abriu as portas ao recrutamento de massas de funcionários (...), gastou o que tinha e não tinha, negociou tudo com toda a gente, cedeu quanto pôde e não pôde, adiou reformas, deixou agravar a crise financeira e alimentou a demagogia. É que o cargo não exige experiência política de governo e um mau primeiro-ministro pode ser um sofrível presidente da república.

Nem sequer me impressiona a fuga de Guterres - homem sem força para resistir, nem carácter para lutar - perante a primeira adversidade: na coisa pública, abandonar funções em momentos de dificuldade para o país começa a ser currículo de demasiada gente para a cobardia relevar como causa de exclusão.

O que ficou indelével de António Guterres foi a traição aos seus. Em 1998, aprovada na generalidade na AR a lei que despenalizava a interrupção voluntária da gravidez até às doze semanas, da iniciativa do partido que o elegeu e aprovada pelas forças políticas que lhe permitiam governar, o agora pretendente a Presidente da República tirou da cartola o coelho do referendo, num negóciozinho aleivoso que veio a manter o aborto como crime.

Colheu, na altura, os benefícios. E acredito que tenha ficado de bem com o seu beato grilo falante. Mas, se o mais alto magistrado da nação pode ser um troca-tintas verboso e pusilânime e ter como apogeu do seu currículo a fuga, NÃO pode trair quem o escolhe como representante. Em democracia, a única coisa verdadeiramente imperdoável para um político é não representar quem o elegeu. Porque ele só vale pelos outros. Se nem por isso, que vá ensinar electrónica aos putos do Instituto Superior Técnico, plantar beterrabas para o Fundão ou acolitar a missa na Igreja do seu bairro. Ocupações honestas e meritórias, em que se pode representar a si mesmo com distinção.